POST MORTEM BULLSHIT
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| César Gilcevi, Humberto Teixeira, Dennis Martins, Fernando Prates |
NÃO SE USA UM SANTO NOME EM VÃO.
Principalmente se este nome for o de Lou Reed, poeta e músico norte-americano.
Se Andy Warhol era o papa da pop art, Lou sempre foi o padrinho das sarjetas, e
suas respeitosas pelancas de hoje em dia não fazem sombra a um passado que
incluiu matrimônio com um travesti, odes à heroína e “o mais triste álbum já
gravado” (as aspas são de Thurston Moore, do Sonic Youth), “Berlin”. É desta obra-prima de 73 que quatro músicos
mineiros “roubaram” o nome de batismo (da tristíssima canção “Caroline Says”) e
tomaram emprestado alguma orientação estética e o gosto pelo (dês) gosto amargo
--- take a walk on the wild side. Que
esse lado selvagem está logo aqui --- nos anéis rodoviários, nas esquinas sem
sócios e na penumbra dos prédios antigos e hotéis decadentes, poucos percebem.
O Carolina Diz não só percebe como faz
disto acusações apaixonadas, carícias sobre as feridas, coceiras existenciais,
mixando o lirismo de Drummond, Manoel Bandeira, Rimbaud e outras penas mais
marginais com guitarras- baixo-vocais-baterias tocadas com raça e urgência
incomuns aos dias de hoje. “Se Perder”, o primeiro trabalho lançado em 2004,
além de uma declaração de intenções, trazia algumas das melhores canções do pop
nacional recente, como “Lady Velvet”, “SuperJoe” e “Carolina Suja”. E uma
canção mestra, “Sobras”, que confirmava o baterista César Gilcevi como o melhor
letrista do país atualmente --- de seus textos nada se desperdiça, nenhum verso
se joga fora, todos os pontos se fazem necessários. Como num rascunho de Dylan,
tudo se aproveita. Habemus poeta, já
era hora dessa geração ter esse registro.
E agora eles desnudam sua maior musa em
quatorze canções/polaróides, acentuadas pela linda arte do CD. Humberto,
Fernando, Denis e César fizeram de “Crônicas Do Amanhecer” um álbum que contêm
tempo e espaço: Belo Horizonte, novo século.
CANÇÕES PARA ANIMAIS MODERNOS. SEJA BEM VINDO. Existe
um quarto em um certo “Hotel Esplendor”, onde paredes riem da sua solidão. Se apaixone por “Mariana”, musa
cotidiana nascida há vinte e cinco natais
que ganha como ode uma canção pop perfeita --- destaque para o solo de Fernando
Prates, guitarrista que prova o tempo todo que menos é mais. Chore por
“Letícia”, declamada pelo baterista e que reprisa um golpe certeiro eternizado
por Dylan em “The Lonesome Death Of Hattie Carrol” e Chico Buarque em
“Construção”: transpor emoção e pesar no que era antes uma congelada notícia de
jornal. Se descubra como “O Migrante”, mais
um bêbado imaculado que espera algum lugar para chamar de lar. Quando
alcançar os mais de oito épicos minutos da “Balada De Mateus E Renata”, terá a
certeza que esta é, de alguma forma, a sua balada também.
A sonoridade “pop suja” destilada no
primeiro trabalho volta ainda melhor: seja a balança pendendo mais para o pop
(como na tenra “Chinelos No Corredor” e na apaixonada “O Que Me Faz Cantar”)
seja pendendo para faiscantes pancadas- Greg Dulli do Afghan Whigs encararia um
dueto/duelo com Humberto em “A Mesma Cruz”, além da atual, atualíssima “Em
Qualquer Lugar”, cuja primeira estrofe é quase o reverso de uma tal tropa de
elite (“Os ladrões te roubam/ Mas a
polícia te mata”).
E talvez as estrofes mais belas dessas
crônicas sejam aquelas que soam ao mesmo tempo inéditas e atemporais. “BH
Blues” é a impressionante coda de um cidade que gira em torno do mitológico
Edifício Maletta, com destaque para os vocais de Humberto e a ambiência
conseguida pelo produtor Fabrício Galvani. “Esperando por Mim” concorre ao
posto de melhor performance do grupo em CD- o baixo pesado de Dennis Martins
fazendo cama para o Carolina Diz sintetizar suas maiores qualidades em uma
canção. Uma puta letra, um puta refrão e uma parede de guitarras que lâmina
nenhuma perfura. “Canção Para Animais Modernos” carrega consigo o spleen eletrônico do Paralaxe, banda
parceira na cena mineira, com direito a participação do vocalista Fred HC e do
guitarrista Rafael Carneiro e riffs de guitarra convivendo com programações.
“Só Me Filio a Raça Humana Nas Contas a Pagar”, garante a banda em uma das
melhores canções do CD. Eu, que não sou nenhum chato clubber estilizado, nem
um rebelde bem nutrido, atesto outra coisa: filio-me a estas “Crônicas Do
Amanhecer” como um personagem não creditado, como um leitor atento, como um
espectador que encontra a alvorada munido da trilha ideal. Que venha o próximo
amanhecer e que ele continue, poeticamente, sendo mais noite que a noite.
THIAGO PEREIRA
PROGRAMA ALTO-FALANTE / JORNAL ESTADO DE MINAS

